1ª Etapa Lisboa – Gran Canaria (Las Palmas) 3 a 10 de abril 2022

Saída de Belém no dia 3 de abril (dom) pelas 12h, integrada no festival aero-naval. Para evitar a  depressão que se registava ao sul de Sagres no rumo para a Madeira, com ventos e mar fortes, a frota decidiu fazer uma paragem em Sines para aguardar melhoria do tempo. Com esta paragem, decidiu-se depois fazer rumo direto para Las Palmas nas Canárias, sendo também a 1ª paragem da travessia de Sacadura Cabral e Gago Coutinho.
O vento na ida para Sines estava de feição, NE e E, constante entre os 11 e 15 nós num dia com sol, levando o SUEK com velocidades sempre acima dos 5 nós e picos de 7,5 nós. Chegada ao cair da noite pelas 21:30h.
Esta paragem intermédia de um dia em Sines, acabou por ser muito importante para as tripulações se conhecerem melhor e afinar em conjunto os processos com a utilização do IridiumGo. No final do dia, jantar num restaurante típico de Sines com algumas das tripulações e a simpática companhia do comandante e do imediato do NRP Polar, da Marinha Portuguesa.

Horas motor na saída Lisboa = 1.945,4 h / chegada a Sines = 1.947,9 h (2,5 h).

No dia 5 abril (ter), saímos de Sines  pelas 10:30h. O dia tinha amanhecido chuvoso e a meio da manhã ainda caia uma chuva miudinha e praticamente não havia vento.
Mar com vaga desencontrada, tendo o vento subido ao início da tarde para moderado do quadrante N. O tempo continuava encoberto, mas a chuva tinha parado. Zalala destaca-se na frente, os outros mais atrás sendo que o Arnika e o Nimbus iam mais junto á costa.

A travessia decorreu sempre com ventos médios a moderados de popa até ao dia 9 (sáb) em que à hora de almoço o vento caiu e obrigou a ligar o motor durante o resto do dia e noite, até chegar a Las Palmas no dia seguinte.

A primeira noite no mar com o vento e mar desencontrado foi desagradável, tendo inclusivamente ficado indisposto. Começámos os turnos ás 21h com intervalos  de 3 horas, situação que se manteve até ao final da etapa. O José das 21h-00h, o Fernando 00h-03h, José 03h-06h, Fernando 06h-09h. No dia seguinte, a indisposição passou, sem nada de mais a registar. 
As refeições eram com a comida já cozinhada trazida de casa. O José preparava com um acompanhamento feito na altura. Lombo de porco assado, croquetes e empadas de carne, carne picada á bolonhesa. Muitos legumes…, 2 pacotes de salada, 1 kg de cenouras, 500gr feijão verde, brócolos…
Nas bebidas essencialmente água. Durante a etapa, eu e o José bebemos no total 4 cervejas minis…

Grande parte da travessia foi feita com as velas montadas em borboleta com a ajuda do pau de spi. O pau preso com amantilhogaio e preventer  a meia nau. Desta forma, permitia um grande controlo, incluindo rizar ou recolher a genoa mantendo o pau de spi sempre montado.

A vela grande sempre aberta com preventer na retranca, sendo necessário cambar várias vezes, algumas a meio da noite, obrigando nesta manobra mudar o cabo do preventer para o outro bordo tendo por isso de ir á proa (com colete e arnês)… uma das melhorias em Las Palmas vai ser preparar cabos adicionais para os ter sempre prontos em ambos os bordos.
No dia 8 (sex), tivemos a notícia da desistência do Nimbus devido a problemas técnicos e que iriam complicar a continuação da viagem até ao Brasil.

Todos os dias havia troca de mensagens entre barcos para indicação de posição e outras informações. Emails para família e download de informações meteorológicas do Predictwind. Sistema lento, mas fantástico! Gribs diários com informação do vento e vaga com as previsões a baterem certo com o que se observava.
Nas informações diárias entre barcos com o IridiumGo, além da posição, o La Luna II partilhava também a ementa gourmet do dia…

Inicialmente, houve alguma dificuldade no envio da posição para o MRCC que nos estava a fazer o acompanhamento através das funcionalidades do followme@sea, tendo-se por esse motivo, passado a enviar a posição diariamente por email. Foram sempre impecáveis com contactos diários no acompanhamento da frota. Um bem haja!

A noite de 8 (sex) para 9 abril (sab), foi a mais difícil. Tínhamos a previsão da subida do vento e mar, mas íamos a andar muito bem com grande e genoa em borboleta com pau de spi. Pensámos rizar ou tirar a genoa á hora do jantar, mas as condições ainda estavam boas e decidimos manter, reavaliando a situação na mudança de turno das 00h. Por volta das 23:30h, acordei com uma guinada e inclinação forte do barco que não era normal.  Neste momento, o José chamou-me a pedir ajuda, porque num salto de vento associado a rajada forte acima dos 20 nós, o barco orçou e a genoa ficou aquartelada a apanhar o vento do lado contrário. Com isso, o barco rodou, tendo também a grande ficado aquartelada devido a estar presa com o preventer. Desta forma, o barco ficou parado, atravessado ao vento e ás ondas. Conseguimos enrolar a genoa e tive de ligar o motor no máximo para conseguir rodar o barco e colocar a vela grande no lugar. A seguir rizámo-la e fomos apenas com esta vela o resto da noite sempre a andar bem, por vezes ainda fazendo picos de 8,5 nós.

O José, entretanto, foi descansar e por volta das 04h vejo no AIS dois barcos exatamente em cima do nosso rumo. Um pela proa, outro pela popa. O da popa ainda vinha longe e o da proa estava a 14 milhas com uma velocidade de cerca 9 nós. Decidi aguardar um pouco para ver o que fazia e a 10 milhas de distância como não alterou o rumo, decidi contactá-lo por rádio. Depois de alguma insistência, responderam, disse-lhes que eramos um barco á vela e estávamos em rumo de colisão e perguntei se nos estavam a ver para garantir um rumo seguro.
Perguntaram de novo o nome do nosso barco e disseram que não nos viam… insisti, indicando que aparecia no AIS. Pediram algum tempo, depois contactaram a dizer que sim, que nos viam e que iam alterar o rumo para passarmos seguros. Agradeci e voltei ao plotter a seguir o barco, quando começo a ver com alguma surpresa que começou a andar aos “ss”. Rumava para um lado, depois para o outro e sempre sem sair do nosso rumo… percebi, entretanto que a dificuldade dele deveria ser o cargueiro que vinha na nossa popa. Neste caso, o SUEK ficava no meio dos dois barcos e ele desviando-se já muito tarde ficava em risco de colisão ora com o SUEK, ora com o outro. O tempo estava a passar, os barcos cada vez mais perto e continuava tudo na mesma sem grandes alterações. Alterei então o nosso rumo, orçando cerca de 30° para que ele percebesse bem a manobra que estava a fazer. Desta forma, o SUEK começou a afastar-se ligeiramente do rumo dele.
A partir dai, o navio também começou a manobrar para nos passar pela popa. Passados cerca de 10min os três barcos cruzaram-se, o SUEK que tinha saído da sua rota inicial para “fora” e os dois cargueiros que passaram roda a roda. Depois de corrigido o rumo, o resto da noite a andar bem, sem mais incidentes. 

A última noite, de 9 (sáb) para 10 (dom), foi sempre a motor, sem vento, mar chão. De manhã, a ver-se o contorno das Canárias ao longe, tudo tranquilo, ETA prevista para as 14 UTC. Chegada à Marina do Real Club Náutico de Gran Canária ás 15h UTC.

Total 1ª etapa (Lisboa-Canarias)
Distancia: 750 NM
Motor: 33,4 h

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